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ENTREVISTA

14/11/2009, Sábado
ENTREVISTA COM O PADRE ZEZINHO - CSSR*

 

   

    ENTREVISTA COM O PADRE ZEZINHO - CSSR*

(Paróquia de Bom Jesus da Lapa – BA).

 

(Por: Ispedito Nunes) - Parece coisa de Deus. Ou melhor, isso também é coisa de Deus. Ao assistir a santa missa das 19:30hs, na aconchegante capelinha do meu bairro, conhecida como Igreja de Santa Terezinha, na última quarta-feira, 28 de outubro, entre as intenções anunciadas constavam: pela alma de Diógenes Alves, (meu cunhado) falecido sete dias antes, em São Paulo – SP, quando a comentarista anunciou também o nome do celebrante, Padre Zezinho.

Desde quando este jovem sacerdote (29) apareceu em Bom Jesus da Lapa, precisamente na Igreja de Santa Terezinha, houve sem dúvidas um gradativo crescimento nas participações das missas dominicais, com relativo entusiasmo, e praticamente uma mudança na rotina dos fiéis para com as obrigações da paróquia. No meu entender, o aquecimento da comunicação fácil com os fiéis, nas interpretações do Evangelho que ele consegue interagir, inserindo o cotidiano de quem o ouve em suas pregações no conteúdo central de cada passagem bíblica, enunciadas em suas homilias, é a justificativa desse fortalecimento dos católicos na Igreja de Santa Terezinha.

 

Longe de querer superestimar o padre Zezinho, tampouco subestimar a forma de atuação de outros sacerdotes em suas pregações, mas, foi como um impulso de Deus nesse dia, sem que eu tivesse conhecimento de que era a data do aniversário da sua ordenação diaconal, achei que devia buscar uma forma de homenageá-lo por assegurar que ele é um pregador diferente.

 Pensando assim, logo após a missa me dirigi até a sacristia e, convidei-o para uma simples entrevista. Tendo aceitado, gostaríamos que o Padre Zezinho tomasse o resultado desse impulso como uma forma de presenteá-lo pelo aniversário da sua ordenação sacerdotal. Noutra esfera da comunicação social, a fim de que os nossos leitores conheçam melhor as suas idéias, o Jornal Gazeta da Lapa orgulha-se em publicá-la na íntegra.      

 

Gazeta da Lapa – Onde e como o senhor viveu a sua infância?

Padre Zezinho – Vivi minha infância em minha cidade natal, Conceição do Coité, que fica a 210 km da capital Salvador. Procurei, mesmo sem ter noção na época, viver minha infância de maneira sadia, como qualquer garoto de uma cidade do interior. Brinquei muito, fui criança, aproveitei o tempo. A coisa que eu levava mais a sério era a brincadeira. Por isso, vejo, hoje, com saudades minha infância. Fui o que tinha que ser.

 

Gazeta da Lapa – Houve alguma forma de reprovação ou resistência quanto à sua vocação religiosa quando aconteceu a descoberta?

Padre Zezinho – Rejeições quanto a minha vocação não. Houve sim, comentários, os quais às vezes sem fundamentos. Mas não dei ouvidos.

 

Gazeta da Lapa – Quais foram os caminhos percorridos pelo padre Zezinho até chegar a Bom Jesus da Lapa?

Padre Zezinho – A minha caminhada vocacional ao sacerdócio começou a partir do momento em que escrevi para o Secretariado Vocacional Redentorista. Isso em 1998. Em 2000 ingressei-me no Seminário aqui na cidade de Bom Jesus da Lapa, e no ano seguinte transferi-me para Salvador para estudar Filosofia, onde fiquei até 2002. Já em 2003, passados dois anos, fui morar em Goiânia. Morei um ano e voltei à Salvador para cursar Teologia. Em 2007, 28 de outubro, em Salvador, recebi a ordenação diaconal. No dia 26 de abril de 2008, na minha cidade natal, Conceição do Coité, fui ordenado sacerdote pelas orações e imposição das mãos de Dom Gregório Paixão, bispo auxiliar de Salvador. Em setembro de 2008, transferiram-me da cidade de Senhor do Bonfim para Bom Jesus da Lapa.

 

Gazeta da Lapa – O senhor é do tipo que lê muito, pesquisa e se atualiza pra contextualizar a evangelização. O que te levou a tomar essa linha de pregação?

Padre Zezinho – Cristo viveu uma época de muita marginalização, de uma exclusão cruel. Ele compreendeu e leu o seu tempo. Falou de Deus encarnado na história. A linha de pregação que tomei, é baseada em Cristo. Lendo os Evangelhos, faço-me uma pergunta antes de cada missa; o que o Evangelho lido tem a ver com o dia-a-dia, meu e das pessoas que me ouvirão? Daí, tiro as implicações para o hodierno. O que Cristo falaria neste contexto? Sabemos, pois, que aconteceram mudanças radicais com a técnica, a cibernética, e a sociedade tomou outros rumos. Como falar de Deus em meio a tudo isso? Contar as histórias do passado, falar de um Deus que não interpela com o ser humano não é minha linha de pensamento. Por isso, falo das coisas rotineiras, da realidade de cada um. Com isso, sei que corro o risco de assustar algumas pessoas por não terem costume de ouvir o que falo, mas tudo tem seu preço, foi para isso que fui formado, para dar o melhor de mim sem querer agradar gregos e troianos. (E depois o susto passa... risos) É verdade, leio bastante para poder discernir melhor o caminho de Deus. Gosto de poesia, poema, sonetos, músicas. Acredito que os poetas lêem em uma linguagem simbólica nossa realidade. Vejo a Bíblia como um enorme livro de poemas e poesias de um Deus apaixonado pela sua criatura. Vejo Jesus Cristo como um grande poeta, leu, como ninguém, a “alma humana” e revelou-nos um Deus humano cheio de afeto e de ternura.

 

Gazeta da Lapa – Suas homilias são sempre recheadas de citações clássicas de autores célebres, literatos, filósofos, compositores, psicólogos, etc. Essa é uma nova tendência da Igreja Católica, ou apenas a sua capacidade de mudar segundo as necessidades da sua Paróquia.

Padre Zezinho – Não diria que seja uma tendência da Igreja, mas uma coisa pessoal. Como falei acima, nas belas canções, encontro composições que resumem meu pensamento. Por exemplo, a máxima que quero viver encontrei numa composição de Victor Garcia, cantada por Mercedes Sosa, intitulada Sólo Le pido a Dios (Eu só peço a Deus), diz um trecho da música: Sólo le pido a Dios que el dolor no me sea indiferente, que la reseca muerte no me encuentre vacío y solo sin haber hecho lo suficiente. (Eu só peço a Deus que a dor não me seja indiferente, que a morte não me encontre um dia solitário sem ter feito o que eu queria). Isso é o que procuro viver todos os dias. Na letra da música, encontrei o que pensava de forma profunda e sintética. Que capacidade tem os poetas! Na Filosofia, encontro os meios pelos quais o meu raciocínio é levado a perceber a diferença entre o essencial e o secundário. É um estado de espírito. Na psicologia, não que ela detenha o todo, encontro caminhos para me ajudar a compreender melhor minhas manifestações e as de outrem. Repito, ela não é máxima da leitura do ser humano. O humano é maior do que todas as ciências, as tecnologias, como me falou meu amado amigo.

Gazeta da Lapa – O seu tipo de pregação está sendo considerado em sua Paróquia, como inovador na Igreja Católica. O senhor acha que os fiéis contemporâneos dormem nas homilias com base exclusivas nas três leituras da missa?

Padre Zezinho – Não nego que já ouvi comentários sobre minhas homilias, algumas favoráveis outras não, mas não me cai nenhum cabelo por causa disso. As pessoas, uma boa parte, não percebem que mesclo todas as leituras numa linguagem contextualizada. Não fico repetindo as palavras das leituras pelo fato de todos já terem-nas ouvido durante a proclamação da Palavra. A homilia, vejo, é para elucidar o que foi dito, é para transpor o que aconteceu para a atualidade. Procuro nas minhas homilias chamar a atenção de todos sobre uma única coisa adormecida em nós, o amor. As pessoas vivem a superficialidade das relações e pensam que amam. Esvaziam a palavra amor. Faço minhas, as palavras de Luís de Camões: “Amor é um fogo que arde sem se ver; é ferida que dói e não se sente; é um contentamento descontente; é dor que desatina sem doer”. “Amar é amar. Não tem razões e não tem porquês;” como diria Carlos Drummond de Andrade. Tento demonstrar que Deus é amor, tento dizer para as pessoas que sintam isso, que não fiquem só na palavra, mas que transcendam. Quanto ao dormir durante as homilias, sem querer ter falsa modéstia, até hoje durante as missas que presido não percebi isso ainda. Pelo contrário, vejo os fiéis atentos e de olhos arregalados, talvez pela forma como celebro.

 

Gazeta da Lapa – Qual a sua opinião sobre o Santuário de Bom Jesus da Lapa?

Padre Zezinho – Sem sombra de dúvida é uma obra magna da natureza. Percebo que o lapense não dá o devido valor a esta obra graciosa que é o Santuário. Mas, vou e volto, geralmente, nós quando temos algo não sabemos dar valor. No que diz respeito à Romaria, vejo-a como manifestação de uma fé simples, mas enriquecida de sentimentos verdadeiros. O romeiro do Bom Jesus tem grandes diferenças dos romeiros de outros lugares sagrados. É um romeiro muito espontâneo, simples. Um romeiro que dialoga com o Bom Jesus. O que o faz diferente, impar.

 

Gazeta da Lapa – E sobre esta cidade?

Padre Zezinho – A cidade de Bom Jesus da Lapa por ser uma cidade turística, deveria ter melhores acessos, melhor infra-estrutura, melhor planejamento. Uma outra coisa, é que percebo o descaso do poder público, seja ela municipal, estadual e pior federal. Por exemplo, a saúde, qualquer exame simples, que não seja o laboratorial, aqui não se faz. Qualquer pessoa que tenha um caso mais grave de saúde, nem tão grave assim, é levada para outras cidades da região. A cidade da Lapa, por ser longe dos grandes centros, deveria ter uma melhor assistência médica. Em síntese, basta olharmos o caos em que se encontram as nossas rodovias.

 

Gazeta da Lapa – Dentre os seus paroquianos ou até mesmo algum confrade já lhe interpelaram quanto a sua forma de celebrar?

Padre Zezinho – Já, tanto entre os paroquianos quanto aos confrades. Mas faz parte, nada que me tire o sono. Vejo como algo positivo, pois é bom ser diferente, isso me deixa em êxtase, sou diferente.

 

Gazeta da Lapa – O que o senhor acrescentaria a esta entrevista, que não lhe foi questionado?

Padre Zezinho – Acrescentaria que vou continuar com a forma de evangelizar que venho tendo, mesmo que algumas pessoas não compreendam. Que prefiram estar pelas “bordas” do que ir ao centro. Devo dar o melhor de mim, não agir na lei do menor esforço. Por fim, agradeço ao jornal Gazeta da Lapa, na pessoa de Ispedito Nunes, pelo espaço, e dedico esta entrevista, como tudo em minha vida, ao meu amado amigo. Ponho-me a disposição da comunidade lapense e aberto, inclusive a comentários.

 

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* Nome: José Roberto Miranda Ramos (Padre Zezinho)

Naturalidade: Conceição do Coité - BA

Data de nasc: 09 de junho de 1980

Congregação: Santíssimo Redentor - Redentoristas

Grau de instrução: Superior completo.

Endereço atual: Rua Araújo Bulcão, s/n – Amaralina – Bom Jesus da Lapa – BA.

Paróquia de Santa Terezinha: Fone: 3481- 0848.

 E-mail: zezinhocssr@gmail.com

 


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